Carótidas
   Algum Blues

Lispector, Clarice. Explosão. 1975.

 "Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?" -Clarice Lispector.

 

(É, talvez eu tenha ouvido algum blues. Lembro que tomei florais para esquecer a morte e me embriagar de flores. Ou não. Talvez tenha sido para me embriagar de vida.

As estradas estão vazias e entendo, cada vez melhor, os quadros de Dalí. Por aqui, as coisas vão indo bem, e uma saudade quase do avesso.) 



Escrito por Beatriz Andrade às 14h33
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   Tantos tinos

Picasso, Pablo. A corrida, verão de 1922, Dinard. Guache sobre madeira compensada, 32,5 x 41,1 cm. Musée Picasso.

Alterando a rota dos planetas o tumulto só se solidifica, e reclama a verdade: nossa condição humana é a de amar, independente da razão e da vontade.

Para que explicar tudo? Para que entender se só nos foi pedido sentir? Mania do cérebro de interferir no motivo bestialmente humano de cavalgar pelo mundo em cima de duas patas, no lombo chucro de um destino que se bifurca em encruzilhadas, as quais nunca sabemos onde vão dar, nem qual nos pegará ao acaso.

(Se lembra de quando sonhávamos e os desatinos eram pesadelos ao contrário? Hoje sinto uma esperança ao avesso, de voltar a viver todas as possibilidades excluídas....................................quem sabe um dia nos daremos uma chance.)



Escrito por Beatriz Andrade às 02h42
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   Outro Gauche

 

 

Caio Fernando Abreu

Do livro Ovelhas Negras (1962-1995)

      "Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
       A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão." 

Parte de um conto chamado "Lixo e Purpurina", escrito em 1974, quando o autor se encontrava em Londres.

(e toda essa baboseira continua a (não) fazer sentido, mas se sentido existir, repito Carlos: é gauche! E nós é que não compreendemos...)

 



Escrito por Beatriz Andrade às 15h34
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   Meta Phisis

Picasso, Pablo. Nu adormecido, 4 de abril de 1932, Boisgeloup. Óleo sobre tela, 130 x 161,7 cm. Musée Picasso.

Sempre tinha medo de que ouvissem meus pensamentos, medo de que eles explodissem assim, grandes, como um grande arroto na sala de jantar. Mamãe ficaria brava e me mandaria de castigo, e papai me privaria da verdadeira razão pela qual jantamos: a sobremesa! E então, sozinha, inha, infinitamente... {esprimida embaixo da minha cama}, eu escutaria pelo chão do meu quarto os vermes roendo a casa toda, a começar pelo porão... era tarde demais! Um monte de coisas podia acontecer e era que aconteceu! Já não tinha mais praga nos jardins, já não tinha mais peste lá em casa, já não tinha “lá em casa”, e a fome desaparecera... a fome de justiça, a fome de cultura, a fome de livros, a fome de vida! Não dessa fome que se mata em supermercados, não! Que essa faz tempo que existe e a gente nem liga mais para ela. É só atravessar a rua e fechar os vidros embaçados do carro sujo e sem moedas, sem olhares, sem esperança.

(Um dia vou contar uma coisa para vocês: a fome da esperança tava suja e a esperança da fome, parecida com aquelas crianças da somália, ou não, tava mais parecida com aquelas modelos bulímicas, que precisam ficar magras para caberem no cabide).

Não quero mais falar da fome, não quero mais falar com você, porque isso me dá indigestão, garoto! Não percebe que não adianta as pessoas ficarem bonitas e burras no seu estado natural das coisas? Não percebe? Isso que você está me dizendo, para falar mais baixo, para que serve? Para não assustar aquela menina de blusa azul? Eu percebi que você está de olho nela e, sinceramente, não entendi por que não vai lá, tira-lhe a roupa, despe-lhe do medo e casa-se com ela, só por uma noite... só por uma noite, não é? Não terias coragem de inventar seus desejos sexo após sexo, não é? É preciso fugir antes que se apegue, é preciso esquecer antes que se apague, é preciso a fome, mas não entendeu ainda que a fome nem sempre se mistura com necessidade. E o apetite se esvai assim, sem você sequer frutificar o que tinha para viver, garoto tolo! E a garotinha de azul vai para sua casa azul, esquecer do dia azul que teve, ou melhor, do dia azul em que não sonhou! E você vai para o seu banheiro, gozar um pouco solitariamente, pensando em ninguém, porque seu sexo é vazio-não-compartilhado... também não entendeu que não importa aonde nem com quem, mas a sua mente pode te fazer gozar melhor do que eu, mesmo quando estou comendo uma caixa inteirinha de bombons, sozinha, e sei bem dentro de mim no que isso vai dar.

É a vida, não é? E você tem medo de encarar. Sequer encara a morte que te espreita e é dela, meu moleque, guarda bem, é dela que vem o sexo que molha e o teu desejo que te devora as entranhas. Esquece o que te disse: fica com essa flor que ela acalentará seu sangue manchado de azul, já que não ousas ser vermelho como tua mãe implorou em sua concepção. Estavas lá quando tudo ocorreu, lembras-te? Claro que não, a vida foi dura contigo e preferiste esquecer. Então guarda: isso tudo são chocolates e a tortura é a caixa onde guarda teus segredos.



Escrito por Beatriz Andrade às 14h05
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