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Concepção

Clarice Lispector. Sem Título, 1975.
"Quero pintar uma tela branca. Como se faz? É a coisa mais difícil do mundo. A nudez. O número zero. Como atingi-los? Só chegando, suponho, ao núcleo último da pessoa." (Clarice Lispector)
Nunca teve um início, e sem início, como o fim?
Não consegui recortar, naquele espaço de tempo, naquele fragmento de olhar, o porquê, a nuvem criadora ou o eixo que sustentou minha fome de afagos. Assim, deliberadamente, existiu tudo, sem contudo haver começado. E, no entanto, tudo fora permitido, da capitulação (que não houve) ao ponto final (que não veio)
(pausa. Quem me conhece sabe o quanto a pontuação de um texto me perturba porque quanto mais vivo se pretende menos coerente fica e paradoxalmente ainda que seja algo conhecido por todos torna-se aos olhos conformados uma espécie de interrogação quanto ao seu significado. Ponto)
E como conceber o início de algo que sempre foi, embora não se soubesse? Será que o saber acarreta em nascimento? Então eu nasci no sempre e me reinventei quando te conheci, muito embora já fosse tarde para se começar (ou continuar) qualquer coisa. Fui. E naquele instante que não sei precisar, nua, voltei ao ponto de partida para entender a mudez das coisas, a mudez dos seres, a Nudez das almas -embora nem todas se permitam tal façanha.
Texto vão.
Escrito por Beatriz Andrade às 11h48
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Picasso, Pablo. Nu no Jardim, 4 de agosto de 1934, Boisgeloup. Óleo sobre tela, 162 x 130 cm.
Um embaraço no estômago: cansada de sentir pressões contrárias às minhas vontades, levantei-me noite dessas e me pus a mastigar antigos desejos. E, súbito, uma música saiu de minha cabeça para impregnar o ambiente de você...
(É que eu não sabia que sonhar era um ato de coragem)
e me aproximei devagar, quase a acariciar meu novo sonho consolidado. Já não era mais vulto na infância de meus sentimentos, era músculos e preciso; eu-ventre-água a me esvair de meu casulo.
"Já que o brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter, o que você não quis desabafar..."
Tantas coisas se passaram pela minha cabeça que nem sei mais o que veio primeiro: se o susto da verdade inteira e sem dissimulações, se a vontade de ficar e invadir o quarto, se o medo de que tudo isso se realizasse. Tentei fechar os olhos que me traíam, mas lacrimejei de olhos fechados todo o contorno e o conteúdo de seu corpo. E a respiração era o modo mais fácil de me fazer chegar até você.
(Já reparou, garoto, como é fácil julgar os próprios sentimentos? É simples, basta darmos nomes a eles! Julgar os dos outros, então... um cisco! Nunca disse que te amava, nem sei o que é isso e, por isso mesmo, talvez o seja. Mas o prazer, por ser mais intenso que a razão, é uma coisa que dá medo às vezes. E não quero me esconder: o Sol brilha lá fora e arde na pele, deixando um efeito lindo e corrosivo. Ainda não entendeu que a vida é feita de espaços que dão significados às nossas escolhas? E se não entendeu que eles devem ser preenchidos, mostro-te o espaço entre minhas coxas, quem sabe assim a maturidade lhe mostre seus caminhos...)
Salto: todas as vezes que tentamos esconder um fato, de fato ele existe e, de fato, já tomou proporções tão ameaçadoras que você, paradoxal e tão infimamente, sequer consegue aproximá-lo do chão. E a verdade perturba até não ser ameaçada novamente. Não entende? Tente o salto.
Ponto: tantas reticências até aqui, tantos zeros e faltas de exclamações,,,,, tantas vírgulas entre meus dentes e a sua língua, mas um dia a pontuação se acerta e, quem sabe, exclamaremos juntos a pontuação possível
(Entre a pele e o sangue habitam o medo e o desejo, e água e sal)
Escrito por Beatriz Andrade às 16h37
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Paulistanamente

RUA SÃO BENTO Data: Início do século XX. Arquivo de Negativos/DPH
Cinza de asfalto-não-argila-nem-barro. Cinza de olhos de carros e fábricas
--e desejos sepultados na frieza do cemitério cinza--
Cinza dos jogados, dos excluídos. Cinza --não de berros nem silêncios-- de gemidos
Cinza do rush banalizado da pressa vazia da boca vazia da vista vazia --da prece.
Cinza dos cabelos no final do dia antes do Pert-Plus
Da sobriedade da seriedade da frieza da necessidade -do risco que se paga pela comida
Cinza de fênix
Escrito por Beatriz Andrade às 16h40
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{Des} ritmias
Ah, hoje quero chover pelos teus olhos e regar de sal teus lábios para te acordar do dia cinzento de tua vida. Quero incomodar tua visão e irritar teu nariz e, quando secares meus caminhos, serei a saliva do teu próximo beijo.
(É que hoje tenho uma vontade bem dentro de mim: uma vontade de fazer cantar tudo o que calou um dia, uma vontade que calo desde sempre, que calo na garganta e que agora quer -por força própria- destruir as grades e os grilhões impostos pelos dentes.
Que a língua solte e gire e grite! Que a língua beije o que seu céu aprisiona! E que os dentes destruam as comidas, não palavras; que sou só, mas sou constante na inconstância de incertezas e de valores reconjugados na disposição de minhas próprias dores.)
Escrito por Beatriz Andrade às 15h47
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Do que me prende
Do que me prende mais na carne que aquele pedaço que você pegou para si, mordeu e sangrou a alma de lilás na noite quente?... Súbito, lembro que seus olhos também me prendem, como sua língua me prendeu na cama tantas poucas e loucas vezes. Ouço vozes. Não, não são as suas, que me embaraçam os ouvidos e me fazem delirar de sei-lá-o-que.
Me prende os livros que não li, as músicas que não dancei, os sorrisos que não vivi e as lágrimas que cairão.
Me prende o sonho, mas não o sonho de liberdade -que esse me liberta mesmo !
- O SONHO DE VER ESSA LIBERDADE CONCRETIZADA É QUE ME CONCRETIZA NO CHÃO DA REALIDADE DE GRADES.
(O sonho de voar é tão real que me alimenta como raíz velha, bem fincada ao chão do cotidiano).
O travesseiro me prende ao seu cheiro e minha pele tem cicatrizes azuis.
As roupas me prendem ao que eu não posso ser, mas meus olhos enxergam longe e já vejo onde quero chegar... Pronto: novas raízes! É que mais ou menos, no momento em que escrevo, eu me escrevo, e pinto o quadro da vida como quero pintar -mais feio ou bonito, depende de quem vê (eu adoro Picasso) - mas sei, a cada pincelada, que trata-se apenas de um quadro. Logo, fecharei o estúdio e voltarei ao eletrochoque auto-aplicado.
Não, não se preocupem. A vida é presente, mas eu canto o que me liberta.
Escrito por Beatriz Andrade às 15h55
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Aglutinação
A Arte é um remédio para a loucura. Ou um passo para ela...
Caminho, abro a porta e me deixo entrar. Não tenho hora para sair, nem para onde, nem porquê. Quero ficar aqui, nua, por quanto eu puder me pintar de sangue. Sangue vermelho, sangue roxo, sangue-todas-as-cores, na parede da lucidez e os vidros se esvaem. Sou só. Sou única e dói.
(De Sade bebi a loucura e de tantos a vida, que se esvai infinita, gota a gota ao chão de papel. Não posso dormir, não posso acordar. Não preciso ir. Estar só me dói.)
Onde estão os seus dentes, onde está seu sorriso? Os seus poros que me cobririam do frio esta noite, onde estão todas as partes de você que me grudam, que me colam, que me dão sentido... que me incomodam e me sangram mais? Sangro do mundo da miséria da barbárie e da falta de razão. Sangro de ódio de medo de lástima.
Sangro de solidão.
-- E a solitude da poesia me devolve a carne que se abre cada vez mais, cada vez por menos.--
Os cabelos crescem, ondulam e alisam num espetar contínuo de cada novo sentimento, e o choro enfraquece a alma, aumenta as chagas gratuitas que não se aglutinam em letras...
Sangro por ser fêmea e por ser sua.
Escrito por Beatriz Andrade às 15h26
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Folhetim

Lispector, Clarice. Tentativa De Ser Alegre. 1975.
Meu coração é uma literatura de cordel às avessas: de poucas rimas e muitos labirintos, desvenda o mundo todo enquanto olha para essa sala. O quarto está vazio mas a casa tem monstros. E eu adoro brincar com eles!
Como dizia, meu coração não é bem Marcelo Soares, mas tem fogo que encanta.
Meu coração se resolve há 100 anos e se reinventa a cada novo folhetim.
Escrito por Beatriz Andrade às 15h11
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Par (t) indo

Lispector, Clarice. Luta Sangrenta Pela Paz. 1975.
"Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. " -Clarice Lispector
E vai ser assim quando eu jorrar de mim mesma: de súbito, com lágrimas nos olhos e o sangue expulsado de meus pulsos, num êxtase de dor e libertação, alcançarei o (in)possível, " in" mesmo, como que de dentro para fora, uma possibilidade a mais de fecundação expressiva. Algo como a libertação do parto.
E parto, cheia de dor e desesperança, porque é assim que se sentem aqueles que já foram tocados pela plenitude: sentem-se vazios!
Ora, se a consciência já foi atingida, o que há mais para tocar?
(Buda não sabia, mas sinto falta do "vir a ser". Entre quatro paredes, confesso: o inferno sou eu e minha maldita conciência! Pá-lavras!)
Escrito por Beatriz Andrade às 14h29
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