Carótidas
  

"A gente vive, eu acho, é mesmo para se deliludir e desmisturar" -Guimarães Rosa in: "Grande Sertão: Veredas"

Queria me desmisturar e me desmistificar, como um novelo de lã grossa e pesada que se transforma em água até ensopar o chão e as paredes recém cobertas de tinta-vinho. Não tinha um porquê não, tinha todos. E nem sei bem quais são.

(mas a vida seria a saliva escorrente de minha garganta seca e descompassada, sem ritmo para a melodia do drama nem da comédia. Uma coisa assim: sem sentido, sem vontade, que simples vem e vai, bem ao querer do vento que dita as regras da rede que balança).

Surdo: agora eu quero um som mudo, que me faça esquecer das rotinas presas na retina... que repentina e repetidamente me dá as asas para seguir com os passos álibis da dor do ventre. -E meu colo pega fogo.



Escrito por Beatriz Andrade às 22h55
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   Tanto assim

Modigliani. Nu sentado.

Deve fazer sentido guardar as coisas assim, debaixo de uma gaveta, atrás dos porões da alma. E quando tudo perde sentido, olhamos de baixo acima, de viés o revés das coisas e dos sentimentos, dando espaço à interrogação contínua, escondida atrás de pontos perplexos e sem rumo.

e como alcançá-los sem se deixar cair?

e como abraçá-los sem se deixar levar?

(numa constante descida aos infernos das ruas, da cidade, das des-humanidades, alcancei a graça de ser eu mesma. Nunca chorei tanto em toda a minha vida, eis o que posso te dar: a imensidão de minha pequenez, contida nesse pote de vidro. Abra devagar. Cuidado: gosto de salivas cristalizadas)

Mas você me devolveu o Gozo e o leite que se derrama por debaixo de sua cama não se faz à toa... Obrigada por me incluir em seu Uni-verso à toa, e perceber que, à toa, criou-se um poema de nós dois, que é meu, mas te dou de presente.

Todos os presentes que pudermos viver



Escrito por Beatriz Andrade às 13h10
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