Carótidas
  

Mulher em Poltrona Vermelha. Pablo Picasso.


... mas tinha um álibi: os dedos dos pés. Eles, mais que ninguém, sabiam perfeitamente onde tudo havia começado e para onde a haviam guiado durante todos esses anos. Culpada: veredicto prescrito para uma pequena mulher assustada de 27 anos, que estendia os dedos das mãos em busca de afago, em busca de afeto. E não a deixaram explicar, jamais deixariam-na em paz... tudo fogos em chamas, chama bem pela tua mãe, menina, que te salvaria, se lhe coubesse. A perdição é em outro mundo, mas aqui as cicatrizes ardem e pesam a ferro pelo preço da absolvição possível. Não chores nem busque culpados. Todos sabemos que aqui não há culpados e todos arderemos de modos diferentemente iguais: sozinhos. Unidos pela voz de lamento, abrimos espaço para a penitência e não olhamos as cortinas de grades que nos protegem. Ou nos cercam. Tanto faz.

(um dia fizeram uma assembléia no condomínio e não sobrou ninguém. Todos ouviram que esse dia chegaria e nem uma só voz ousou gritar. Mas construímos os portões, e são altos, como quiseram que quiséssemos).

Um dia teve 3 anos de idade. Seu pai a segurava docemente pela mão e, olhando firmemente em seus olhos, dedicou-lhe a seguinte lição: só se aprende a amar uma vez na vida, filha. Hoje questionava aquelas palavras, certa de que não havia aprendido ainda nada nada do que a vida lhe propusera até ali.

14h da segunda-feira: hora de se jogar pela janela. Tinha contas a pagar, contas a fazer, compras a se endividar, dinheiro nenhum a receber. Definitivamente: Blues! Colocou na vitrola um clássico que seu ex-namorado a fizera gostar, especialmente depois das brigas todas: John Mayall´s Bluesbreakers com Eric Clapton. Seu ex-namorado e o Blues... ainda não sabia o que faria sem eles, mas confiava que a vida, mais uma vez, lhe seguraria pela mão e daria uma daquelas lições que continuariam não servindo para nada, apenas para afastá-la de maus pensamentos, para fazê-la entender a continuidade da existência e que não importa o quanto erramos, sempre seguimos adiante. Chovia por dentro, inundando o mundo todo. Definitivamente Blues!

Tinha mais tarde uma gota de orvalho lá fora, propondo que a vida seria melhor se mais simples. Isso entendeu e pegou o casaco que a protegia da frieza do mundo. Saiu.

(Continua...)



Escrito por Beatriz Andrade às 16h26
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   (Des)cobertas

Hoje descobri as cortinas cinzas da solidão e senti todos os pós dos meus sentimentos: poros do tecido do dia.

(e o galo, que ultrapassava as manhãs, cantava e tecia de novo tudo denovo, mas sem o frescor da novidade, só células de passados misturados aos presentes futuros, conectados apenas pela possibilidade) 

Hoje descobri a virgindade das minhas cojecturas, anexadas irremediavelmente às minhas já tão gastas arritmias, porque só se é vivo uma vez, e porque quero sentir a viveza da alma tão leve, tão inchada, tão molhada de projeções.

(e analisando as palavras de meu terapeuta: não, não vivo apenas de sonhos e sim, existem outras metafísicas possíveis embora eu me cure com o chocolate, meu pequeno sujo)

Hoje descobri aquela palavra que faltei falar quando nos vimos pela última vez, e que jamais será tarde repetir e evocá-la. Você sabe.

(porque a palavra é o signo arbitrário que pede outro e outro. Signos que se seguem e seguem outros significados. Porque a palavra é a abstração de todas as minhas vontades concretas)

Hoje descobri-me sozinha em meio à solidão do mundo. E, só por hoje, tirei o dia de folga.



Escrito por Beatriz Andrade às 18h04
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