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Desprovida
“(...) Supliquei, pedi um sinal, enviei mensagens ao Céu: nenhuma resposta. O Céu ignora até o meu nome. Eu me perguntava, a cada minuto, o que eu poderia ser aos olhos de Deus. Agora, já sei a resposta: nada. Deus não me vê, Deus não me ouve, Deus não me conhece. Vês este vazio sobre nossas cabeças? É Deus. Vês esta brecha na porta? É Deus. Vês este buraco na terra? É Deus ainda. A ausência é Deus. O silêncio é Deus. Deus é a solidão dos homens. Eu estava sozinho: sozinho, decidi o Mal; sozinho inventei o Bem. Fui eu quem trapaceou, eu quem fez milagres, eu quem se acusa, agora, eu, somente, quem pode absolver-me. Eu, o homem. Se Deus existe, o homem nada é; se o homem existe... para onde vais?" -Jean Paul Sartre. O Diabo e o Bom Deus
por isso, quando quero alcançar o infinito, fecho os olhos com tamanha veracidade e entrega. E finalmente, descubro o óbvio: o ser-humano compõe, instintivamente, a partitura de sua vida de acordo com as leis da beleza. E quem disse que ela é a ordem? E quem disse que uma oração é um pedido e não uma canção? Quem não rasgou o coração em busca do famigerado amor, essa migalha de amor-próprio ou excesso de vaidade tão bendito numa sociedade consumista que parcela suas promessas em dívidas; que prevê pecado, culpa, pagamento e remissão; que contabiliza boas ações; que credita as incertezas a um Deus sem respostas?
-Quem prometeu que aprenderia a amar, dizendo que eu pagaria por cada centavo de lágrima causada por não deter esse dom?- (mas disso não vou falar: prometi ao meu psicólogo que esse assunto se confinaria ao céu, onde me encontro todas as trevas)
Hoje busco a leveza e está difícil de alcançar. Hoje, quero a beleza desprovida de propósito, quero mares e tempestades, para me plenificar e me desaguar. (Paradoxos? Pode ser. Quero a beleza simplesmente, porque cansei de tentar fazer sentido.) E essa beleza tão pouco urbana é o estágio último da beleza atingível: o resto é pó. Guardo o ouro bruto em meu bolso esquerdo, que da terra faço a escultura com que traço a minha vida: não tem forma e, talvez, nem identidade. Mas tem consistência e marca bem as pupilas dos que a enxergam de verdade.
Escrito por Beatriz Galvão às 23h31
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De concreto
"Se ao menos esta dor servisse se ela batesse nas paredes abrisse portas falasse se ela cantasse e despenteasse os cabelos
se ao menos esta dor visse se ela saltasse fora da garganta como um grito caísse da janela fizesse barulho morresse
se a dor fosse um pedaço de pão duro que a gente pudesse engolir com força depois cuspir saliva fora sujar a saliva fora sujar a rua os carros o espaço o outro esse outro escuro que passa indiferente e que não sofre e tem o direito de não sofrer
se a dor fosse só a carne do dedo que se esfrega na parede de pedra para doer visível doer penalizante doer com lágrimas se menos essa dor sangrasse..." –Saramago
eu me abriria, poro por poro, e a escancaria manchando-lhe a alma.
Se essa dor falasse, talvez você se perguntasse, no íntimo, por que a natureza lhe dera ouvidos.
Se essa dor cuspisse, jogaria pela saliva os vermes de sua boca, de tão longe guardados em mim.
Se essa dor, que me despenteia por dentro, chorasse por fora, esse sorriso com que violento minha face não soaria mais tão cativante.
Se essa dor escrevesse a verdade quando me perguntas como estou, romperia com o silêncio imposto pelo I Ching.
Se essa dor, que me implora a verdade, fosse seguida ao invés de velada, eu dormiria todas as noites com a boca na sua pele e lhe diria, ao pé do ouvido, que você é, às vezes, o céu de minha vida; noutras é meu demônio. Que nós dois não fazemos sentido juntos, tampouco separados. Que todas as dúvidas que eu tinha, ainda as guardo embaixo do travesseiro, mas que, a despeito de todos os caminhos (im)possíveis, eu queria esse: o de inventarmos um sentido juntos.
Mas a dor não fala. A dor não chora. A dor não sangra.
De concreto, a dor só tem seu cheiro.
Escrito por Beatriz Galvão às 19h40
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Paralelas
saudade só. solidão.
Por trás de meu nome, um labirinto se desdobra.
Escrito por Beatriz Galvão às 10h44
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Das barbas que não consegui arrancar
Meu amor,
Não tinha lido nas entrelinhas que aquele seu olhar não era de despedida, mas de súplica por alguma resposta. Até ontem, os cacos de minha maturidade tardia não haviam se juntado de forma nítida, e passei as últimas 24 horas me interrogando se era justo lhe meter novamente no meio de minhas confusões.
Queria dizer que só tenho olhos e poros para você; queria dizer que as noites são intermináveis quando não estou ao seu lado; queria dizer que roubaria o céu para colocarmos em nosso quarto... mas meu amor é sincero e não cabe em pequenas-fórmulas-feitas... meu corpo é vasto e não se sacia de uma só carne; minhas noites terminam quando meu sexo seca e o céu... bem, o céu é melhor deixarmos onde está (ainda que eu quisesse roubá-lo, o seu quarto já não é mais o meu e dá-lo de presente me privaria do direito de ver a lua pensando em você).
Não. Meu amor não é pequeno para caber nestas fórmulas-feitas.
--Freud certamente se divertiria ao ver a cena em que eu estava pintado no momento de minha reflexão: de chambre branco, bebendo whisky e fumando, sem nenhum complexo, o meu charuto. Mas o mais picante disso tudo seria se ele, ao observar-me onde já foi o nosso leito, anotasse em seu caderninho: “Não, nem tudo está errado. Porém, minha teoria não pode abarcar certos sentimentos”. E deixasse uma pequena nota de rodapé dizendo: “Recomeçar do zero, analisando a partir do ponto em que parei”.
E foi aqui, meu amor, justamente aqui que parei minhas meditações ontem: pensando no ponto em que paramos. E me dei conta de que nos fomos, sem querer, sem sequer que eu percebesse o momento final, a última cena! Não me despedi dos seus olhos, que me vigiavam enquanto eu dormia; não me despedi de tua pele, que tanto me exigia; não me despedi de teus cabelos tão colados ao meu rosto aqui, nesta cama tão pequena; não me despedi, sobretudo, de tua boca, que tanto me interrogava e me aquecia. Tenho-os todos guardados na minha memória mais forte: a memória do teu cheiro, que ainda caço n´algumas noites perdidas.
--Por favor, se for a bebida a co-autora dessa carta que jamais será lida, ou se me levantar tropeçando para cair nos braços de alguma Moça, não se esqueça que a força do hábito, essa sim, é tão sincera e às vezes mais forte que o meu amor.
Mas volto à sobriedade, sim.
Vou trabalhar duro para pagar os meus vícios em dia, sim.
E, no começo da noite, quando eu voltar para esse teto, dormirei sozinho em meio às orquídeas que comprei para você.—
(e me esqueci que o amor podia não caber nos frascos convencionais, mas que podíamos tê-lo sorvido a goles diários). Tenho whisky e paguei caro por ele.
Escrito por Beatriz Galvão às 18h21
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Simplesmente meios
Detesto os inícios de relacionamento!
Isso mesmo! Resolvi assumir em público meus desvios da normalidade: Detesto o que a maioria das pessoas procura... aquele frio na barriga, aquelas incertezas tão freqüentes, aquela falta de comunhões. Detesto o rio semântico todo ainda a ser construído, e as pontes precárias que mais separam que unem mundos tão distantes, prestes a se tornarem um só. (Detesto, mesmo, ter de explicar meu léxico a outrem! E dividir com um semi-desconhecido toda uma partitura de uma vida que, se não pronta, já com as bases marcadas e a melodia em compasso. A falta da entrega desmedida - aqui medida por levezas, sutilezas e necessários jogos de sedução - não me permitem SER.)
Talvez tenha preguiça. É isso. Se for, vamos ressemantizar esta conversa e a nossa relação: talvez a preguiça de me explicar se explique por minha necessidade de me re-inventar constante. (Mais fácil a reinvenção de si quando não perdemos tempo com explicações, não?) -Preguiça e a vontade de "um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida" (Frejat - Cazuza)
Ah... quem me dera nos permitíssemos simplesmente meios!
Escrito por Beatriz Galvão às 22h21
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Arte Contra a Barbárie
O Movimento Arte Contra a Barbárie inicia uma nova série de debates. O objetivo é continuar o processo de discussão sobre as relações entre arte e sociedade, convocando as diversas áreas à esfera do debate livre e público. Voltam à cena questões como as relações entre Estado e financiamento, as condições específicas de produção, os vínculos entre a produção e a cidade, seu alcance, a integração entre as diversas formas expressivas. Questões a serem debatidas num ciclo de 7 encontros, sendo o primeiro deles com o professor de sociologia da USP, Francisco de Oliveira, que discutirá a figura do Estado e seu funcionamento no mundo contemporâneo. A partir de Maio, todas as primeiras segundas e terças-feiras de cada mês serão dias de encontros, em que mesas redondas acontecerão. Artistas de teatro, cinema, dança, músicos, escritores, artistas plásticos, críticos, criadores e críticos de televisão, intelectuais de diversas áreas seguirão discutindo, entre as diversas questões:
- o papel e o funcionamento da televisão na formação de uma “imagem nacional".
- o cinema e as relações de produção e seu papel na conformação de uma debate sobre as idéias de “formação” e “identidade nacional”.
- a literatura e as condições de intervenção nas figuras do escritor e do crítico.
- a integração das diversas artes no universo da indústria cultural.
- os pressupostos da crítica teatral face ao estágio atual da produção.
- as figuras do financiamento e do patrocínio.
Compareça!
movimento@artecontrabarbarie.com.br
Teatro Fábrica São Paulo
Rua da Consolação 1623 - Telefone 3255-5922
Escrito por Beatriz Galvão às 21h50
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