Carótidas
  

Estréia
NO FIM DÁ TUDO NO MESMO. O QUE NÃO DÁ NO MESMO É O QUASI...

QUASI, aborda o relacionamento de Mário de Andrade com Anita Malfatti a partir das cartas que a pintora recebeu do escritor.

A Cia Incomodada de Teatro trás em evidência em sua nova montagem o relacionamento entre estes dois modernistas. Amor platônico ou real? Esta conclusão vai depender do ponto de vista do espectador. Só se pode dar aquilo que se tem. Só pode existir amor se existir o perdão. E mais, o perdão se torna desnecessário se existir a compreensão.


Os atores Vanessa Portugal e Chico Neto, em "QUASI", de Albano Martins Ribeiro.


Quasi é o primeiro texto teatral de Albano Martins Ribeiro que, até hoje, havia trabalhado apenas no conto e na crônica, com raras incursões pela poesia e uma pelo vídeo, quando ganhou o Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura, pela adaptação do poema Grandes são os Desertos, de Fernando Pessoa. A peça, baseada na correspondência de Mário para Anita, é dirigida por Nany di Lima, fundadora da Companhia Incomodada. "Pensamos como espectadores: o que poderia ter acontecido entre esses dois? Um homem e uma mulher. Uma amizade alicerçada pelos estímulos do modernismo que, em muitos outros pares, foi linha - ou entrelinha - de uma relação baseada em paixões. Mas entre Mário e Anita, quase ao contrário, existe apenas o silêncio das intenções", diz Nany.

No elenco, Chico Neto, ator e poeta, e Vanessa Portugal, atriz e bailarina, fazem, respectivamente, Mário e Anita: um Mário curioso, dissimulado, revolucionário e cômico; uma Anita, mulher-menina, "protomártir do movimento modernista", com a dualidade de comportamento que se percebe em sua obra. De forma poética, entre letras e tintas, entre olhares e escusas, entre toque e distância, entre o som e o silêncio, a amizade entre Mário e Anita foi muito importante para ambos, profissional e pessoalmente.

A montagem se divide nas partes que representam o todo. Passa-se pela exposição de 1917, pela correspondência, pelos encontros e desencontros, pela pintura, pela escrita, pelas expectativas, pelas frustrações. E, por fim, estes personagens finalmente se encontram, mas num outro plano.

E se agora? E se não fosse mais preciso mentir, dissimular? O que eles diriam um ao outro?

Press Release
publicado na Folha Iustrada, dia 23 de junho de 2005
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2306200521.htm

"Quasi" conjuga relações entre Anita Malfatti e Mário de Andrade 
  DA REPORTAGEM LOCAL

Anita Catarina Malfatti e Mário Raul de Moraes Andrade quase chegaram lá. Expoentes do Movimento Modernista da São Paulo, dos anos 1920, a pintora e o escritor viveram uma grande amizade; mas, se dependesse dela, cruzariam a linha da paixão.
O "silêncio das intenções", como diz a diretora Nany de Lima, perpassa a relação de Malfatti (1889-1964) e Andrade (1893-1945), mote do espetáculo "Quasi", em cartaz a partir de amanhã no Centro Cultural São Paulo.
A primeira peça assinada pelo escritor Albano Martins Ribeiro é inspirada na correspondência de Malfatti e Andrade, de 1921 a 1939, reunida no livro "Cartas a Anita Malfatti" (1989), organizado por Marta Rosseti Batista.
"E se eles se encontrassem em outro tempo e espaço, o que diriam um para o outro? Lavariam roupa suja? Foi o que nos perguntamos", afirma a atriz Vanessa Portugal, 22, que interpreta Malfatti. O papel de Andrade é vivido por Chico Neto.
Além das cartas, a dramaturgia de Ribeiro se permite intervenções ficcionais, permeando a história de cenas cômicas e propriamente dramáticas.
Parte de 1917, quando os artistas se conheceram, e avança pela correspondência, encontros e desencontros.
A cenografia, por André Cortez, dispõe os personagens em dois nichos: o das cartas (folhas, envelopes) e o da pintura (telas). Invariavelmente, Malfatti e Andrade invadem um o espaço do outro, e vice-versa. (VS)


Quasi
Quando: estréia hoje, às 21h; sex. e sáb., às 21h ; dom., às 20h. Até 7/8
Onde: Centro Cultural São Paulo - sala Paulo Emílio Salles Gomes
(r. Vergueiro, 1.000, Paraíso, tel. 0/xx/11/3277-3611)


Quanto: R$ 10 (R$ 1,50 no dia 15/7).
Blog do autor (querido amigo meu): http://brancoleone.blogspot.com/



Escrito por Beatriz Galvão às 15h14
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Eu

olhares

faces

sorrisos

facetas

língua

boca

buceta

poros

Nós

Bocas

Dentes

Línguas

Trava-línguas

Gengivas

Pedras

Água, sal

Falo, falos, conversas, teclados, visores, ouvidos-sem-tímpanos, palavras, pá-lavras, idéias, sementes, projetos, fuga, não-dito, mal-dito, ditados, deitados, silêncios, calados, cálidos, sozinhos, caminhos, buracos, frio, solidão, joguinhos, textículos, machados, flores-sem-papel, promessas, vírgulas, pontes

Você



Escrito por Beatriz Galvão às 16h44
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   Algumas linhas

Queria entender, uma vez ao menos, aquelas linhas que as rugas traçaram em seu rosto.

Não era um rosto de velha, nem tampouco de poros cansados de uma vida fatigada. Antes, era viçoso, tal como o jovem e brilhoso impacto de seus olhos. Movidos pela vida que ainda havia neles, faziam um jogo de luz e sombras com aquela pele sedosa... e enrugada.

Algo não combinava naquela harmonia mal comunicada.

Enfastiei-me. Nunca fora dada a observações constantes de uma mesma pessoa. Talvez pela falta de interesse que a normalidade me causava. Mas as suas linhas tão bem traçadas, o fino de seu nariz pontiagudo, sua boca fina e bem contornada, sua pele esticada pelos (poucos?) anos que vivera, contrastavam fuzilantemente com aquelas rugas que não me deixaram em paz.

Nunca mais me deixarão em paz.


Antigamente, seguia utopias.
Hoje sigo gentes, nas esquinas, nos bares, nos beijos e nos olhares.

Antigamente, acreditava poder mudar o mundo.
Hoje creio que o mundo vai muito mal com tanto poder, de tão poucas gentes, de nenhuma utopia.
Hoje as linhas mal-traçadas no rosto da mulher andam em minhas mãos, as mesmas que se despedem aos pedaços de históricos blocos amorfos e pesados (ou vazios?) que andam para trás (mas seus cabelos esvoaçam na garoa fina dessa garota chamada Sampa, e isso faz o espetáculo valer a pena).

-E os relógios da capital badalam que não é mais hora de apertar os passos. Afrouxemos os pensamentos e sigamos, enfim, para casa.-
(Pensamentos de um fim de tarde em que, tarde, me afundo na solidão)



Escrito por Beatriz Galvão às 16h19
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